O que achamos que sabemos e o que queremos saber: perspectivas sobre confiança nas notícias num mundo em mudança

Passageiros no metrô, Brasília, Brasil, julho de 2020. REUTERS/Adriano Machado

Passageiros no metrô, Brasília, Brasil, julho de 2020. REUTERS/Adriano Machado

Leia o relatório completo em inglês.

1. Introdução

Há uma erosão mundial na confiança nas notícias. De acordo com o Digital News Report do Reuters Institute, pesquisa realizada em 40 mercados, menos de quatro (38%) em cada dez pessoas dizem normalmente confiar na maioria das notícias (NEWMAN et al. 2020). Embora o nível de confiança tenha tido uma queda por volta de dois dígitos nos últimos anos em muitos lugares, incluindo o Brasil e o Reino Unido (FLETCHER 2020), em outros países, tendências gerais mais estáveis ocultam divisões partidárias acentuadas e crescentes (ver, por exemplo, JURKOWITZ et al. 2020).

Por que a confiança está se deteriorando, como ela se manifesta em diferentes contextos e em diferentes grupos, quais são as implicações, e o que pode ser feito acerca disso? Estas são as questões norteadoras do Trust in News Project. Este relatório é o primeiro de muitos que publicaremos sobre o projeto ao longo dos próximos três anos. Visto que confiança significa uma relação entre instituidores (trustors) e fiduciários (trustees), nós pensamos que o principal foco será o público e o que ele pensa sobre confiança. Entretanto, começaremos o projeto fazendo um balanço sobre o assunto a partir da opinião daqueles que estudam jornalismo e daqueles que o praticam. Além de sermos informados por suas experiências, também pretendemos engajar a pesquisa com a forma pela qual jornalistas profissionais e as organizações noticiosas abordam a questão de confiança, a fim de que o estudo possa ser mais útil para o trabalho deles. Aliando uma extensa revisão de pesquisas existentes sobre a confiança nas notícias (incluindo quase 200 publicações interdisciplinares) e entrevistas originais sobre o assunto (incluindo 82 entrevistas com jornalistas e outros profissionais em vários países), resumimos alguns dos elementos a respeito do que se conhece e se desconhece sobre a confiança, o que contribui para estas tendências e como as organizações midiáticas procuram lidar com elas em ambientes digitais cada vez mais competitivos.

Confiança não é uma preocupação abstrata, mas sim parte das bases sociais do jornalismo como profissão, da notícia como instituição, e da mídia como negócio. Ela é importante e perigosa, tanto para o público quanto para as organizações noticiosas – é importante para o público porque ter confiança nas notícias ajuda as pessoas a navegarem e a se engajarem com o mundo, mas é perigosa porque nem tudo é igualmente confiável.  Para as organizações noticiosas, a confiança é importante porque a profissão depende dela, mas é perigosa porque pode ser elusiva e difícil de ser recuperada quando perdida.

Portanto, se “confiança é a nova moeda para o sucesso”, como declarou a World Association of News Media (TJAARDSTRA 2017), como é que se ganha confiança e o que tal moeda pode comprar? Para aqueles que querem recuperá-la ou retê-la, não é suficiente fazer coisas que simplesmente parecem boas ou que provocam uma sensação de bem estar. Na realidade, as iniciativas precisam funcionar, sob o risco de não fazerem nenhuma diferença, ou pior, de serem contraproducentes. Mesmo quando elas funcionam, muitas das escolhas envolvidas na busca do aumento de confiança em notícias precisas e confiáveis podem vir juntas a um balanço entre perdas e ganhos. Nosso objetivo no projeto é reunir evidências que possam ser colocadas em prática para ajudar os jornalistas e as organizações noticiosas a tomar decisões informadas sobre a melhor maneira de lidar com as preocupações relacionadas à erosão da confiança.

1.1. Por que confiar nas notícias é importante?

Parte do crescente ceticismo relacionado às notícias pode muito bem ser consequência de ambientes midiáticos cada vez mais pluralistas (SCHUDSON 2019, WAISBORD 2018). Entretanto, num mundo no qual muitas empresas de notícias, apesar das suas imperfeições, continuam sendo as fontes independentes mais confiáveis para informações acessíveis, oportunas e relevantes sobre assuntos públicos, o declínio da confiança pode ser uma barreira determinante aos cidadãos que procuram tomar decisões políticas esclarecidas e fiscalizar seus líderes. Grandes parcelas da população de vários países, especialmente no Sul Global, dizem estar preocupados em saber distinguir o que é verdadeiro do que é falso online (NEWMAN et al. 2020). Ao mesmo tempo, enquanto grande parte do público responsabiliza as empresas de plataforma e os políticos locais como aqueles que contribuem para esses problemas, outros também identificam os jornalistas como as fontes de informações falsas ou enganosas com as quais eles mais se preocupam (NEWMAN et al. 2020).

Alguns dos motivos mais convincentes relacionados à preocupação com a confiança em notícias foram aqueles que ouvimos em entrevistas com jornalistas e com pessoas em cargos de gestão nas mais diversas redações nos últimos meses. Entre eles, encontramos questões comerciais práticas, pois os modelos de negócios de muitas empresas jornalísticas dependem mais do que nunca da receita direta proveniente dos assinantes e dos apoiadores. Entretanto, muitos também enfatizaram as consequências da confiança para a própria atividade jornalística. A confiança tem impacto sobre tudo, desde a fonte da informação – que é “sacrossanta”, nas palavras de um repórter sênior de um jornal britânico – até a segurança dos repórteres (ver BEAUMONT 2020), passando pelo impacto público decorrente de reportagens sobre corrupção e atos ilícitos.

Se um cão está latindo, mas ninguém se importa, de que adianta?
Margaret Sullivan, colunista de mídia, Washington Post (EUA)

1.2. Nosso foco

Nosso foco está centrado nos ambientes midiáticos de quatro democracias - Brasil, Índia, Reino Unido e Estados Unidos. Estes países abrangem tanto o Sul como o Norte Global e possuem uma heterogeneidade cultural diversa e práticas políticas que variam em suas tendências partidárias e populistas. Para os nossos objetivos, uma das diferenças mais importantes entre esses países está em como o público integrou as mídias digitais e sociais na forma como consomem notícias. Os sites redes sociais, como Facebook e Twitter, se tornaram rapidamente os principais canais de informação nas democracias a nível mundial. Todavia, muitos dos entrevistados apontaram para a popularidade de serviços de mensagens criptografadas como o WhatsApp, especificamente no Brasil e na Índia, que se combinaram com déficits na alfabetização digital para servir de “viveiro” de má informação e desinformação (CHAKRABARTI et al. 2018). Como nos disse Irineu Machado, Gerente-Geral de Distribuição de Conteúdo do UOL (Brasil), o público cada vez mais “começa a desconfiar dos veículos que tradicionalmente” cobrem as notícias e “passa a desconfiar da informação de forma generalizada”. Alguns se baseiam não apenas nas redes sociais, mas também em grupos privados e em aplicativos de mensagens.

As entrevistas que fizemos incluíram jornalistas das marcas mais proeminentes em cada um desses quatro países, assim como vozes adicionais daqueles que trabalham para tratar de desafios no ambiente de informação, tanto dentro como fora das redações1. Devido à sensibilidade do assunto, cerca de um terço dos entrevistados pediu que não revelássemos as suas identidades; no entanto, todos contribuíram com opiniões relevantes que moldaram o nosso raciocínio. Sempre que possível, incluímos citações de nossas entrevistas com profissionais, mas convém salientar que, em alguns casos, profissionais experientes têm visões divergentes ou até incompatíveis entre si sobre confiança e sobre como ela funciona. Às vezes, essas opiniões ainda não foram respaldadas por pesquisas ou são contraditas por resultados de estudos. Nosso objetivo é representar fielmente os pontos de vista que ouvimos, mesmo quando eles divergem entre si ou estão apenas parcialmente alinhados com as pesquisas existentes.

A versão completa deste relatório está dividida em duas seções principais. Primeiro, ressaltamos as lições importantes das pesquisas existentes e das observações de profissionais sobre confiança nas notícias. Segundo, identificamos as questões pendentes que esperamos orientar nosso projeto nos próximos anos. Resumimos abaixo as principais conclusões das duas seções.

1.3. Conclusões principais

  • Não há um único problema de “confiança nas notícias”, mas múltiplos desafios que envolvem tanto a oferta de notícias quanto a demanda por informações. Diferentes segmentos do público, assim como jornalistas e pesquisadores, sustentam opiniões diferentes acerca de como o jornalismo funciona e, às vezes, têm pontos de vista conflitantes sobre o que esperam dele. Assim, aqueles que desejam abordar a confiança precisam ser específicos em seus objetivos estratégicos e, de preferência, basear seu trabalho em evidências comprovadas, pois iniciativas que funcionam com parte do público podem não funcionar com outros segmentos.
  • Muitos estudiosos e profissionais têm diagnosticado problemas na produção de notícias que podem contribuir para a desconfiança. Os efeitos de mudanças nas práticas de distribuição, especialmente o importante papel desempenhado pelas plataformas, não são tão bem compreendidos, mas possivelmente são importantes. Muitos dos entrevistados temem que as plataformas reduzam a confiança do público nas notícias, mesmo que elas também ajudem as pessoas a encontrar notícias. Aperfeiçoar padrões e práticas jornalísticas pode não contribuir para aumentar a confiança se os esforços não forem visíveis aos usuários que se deparam com notícias nas mídias sociais apenas de forma passageira.
  • As iniciativas internas e externas em torno da transparência, do engajamento e da alfabetização midiática mostraram ser promissores, mas as evidências empíricas sobre o que funciona, com quem e em quais circunstâncias, permanecem turvas. Frequentemente, as pesquisas têm sido muito desconectadas da prática e muito concentradas em apenas um punhado de países. Existe um risco considerável em fazer coisas que parecem boas e que provocam uma sensação de bem estar, ou imitar o que outros estão fazendo, com base em pouca ou em nenhuma evidência. Isso pode levar, na melhor das hipóteses, a esforços desperdiçados – e a resultados contraproducentes, na pior.

Os esforços para melhorar a confiança, por mais importantes que sejam, envolvem escolhas em sociedades divididas e polarizadas e podem ser conflitantes com outras prioridades importantes, tais como a fiscalização do poder público. Combater os preconceitos arraigados na ideia de como as notícias funcionam, sejam eles estrategicamente perpetuados por líderes políticos ou transmitidos ao longo de gerações em comunidades particulares, requer escolhas que provavelmente alienarão certas audiências em detrimento de outras.

1 Selecionamos as organizações midiáticas com base no Digital News Report de 2020 (NEWMAN et al. 2020), que classifica as três marcas mais utilizadas online e offline e as três marcas de maior e menor confiança em cada país. Para a Índia, nos baseamos em um relatório piloto do Reuters Institute (ANEEZ et al. 2019). A partir disso, usamos o método da bola de neve para incluir outras publicações relevantes a nível local e regional.

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